A CVM anunciou uma consulta pública sobre o marco de tokenização, com prazo declarado de até 100 dias, e investimento em supervisão on-chain. Não há norma nova em vigor: há um compromisso público de levar o tema à consulta. Para quem origina e estrutura crédito, a tecnologia segue a mesma; o que muda é a moldura institucional, e é ela que decide quem escala e quem fica preso à operação pontual.
O que aconteceu
Otto Lobo assumiu a CVM em 8 de junho de 2026. No discurso de posse e nas comunicações que vieram junto, dois pontos interessam a quem acompanha ativos digitais.
O primeiro é a consulta pública sobre o marco de tokenização, com prazo de até 100 dias para sair. A consulta foi anunciada, não está aberta nem em vigor. Consulta pública é começo de processo, e o resultado depende do que o mercado trouxer.
O segundo é a supervisão on-chain. A CVM sinalizou que vai desenvolver capacidade de acompanhar atividade registrada em blockchain, com inteligência artificial e análise de cadeia. É o regulador se preparando para tratar o ambiente tokenizado como mercado supervisionado.
Os dois pontos foram reportados por BlockNews e Finsiders Brasil em 9 de junho, com base no comunicado da CVM publicado no dia anterior.
Por que importa para quem origina crédito
Quem origina crédito vive de duas coisas: acesso a investidor e previsibilidade de estrutura. A tokenização sempre prometeu melhorar o acesso, reduzindo o atrito de distribuição e fracionando o ticket. A previsibilidade é onde o regulador faz diferença.
Enquanto o enquadramento é informal, cada operação tokenizada carrega um prêmio de incerteza: a estrutura é explicada a cada investidor, o jurídico revisa do zero e o custo de convencer é alto. Um marco regulatório, mesmo em consulta, começa a derrubar esse prêmio. Cria vocabulário comum e dá ao investidor institucional a referência para alocar.
Há também o lado defensivo. Supervisão on-chain com IA torna o improviso visível, e estrutura montada para driblar regra passa a correr risco bem maior. Para quem já opera com governança séria, a régua sobe e separa quem construiu base sólida de quem apostou na ausência de fiscalização.
O que a consulta deve tratar
Aqui é expectativa, não certeza, porque a consulta ainda não tem texto público. Pela trajetória da CVM e pelo debate que já corre no mercado, alguns temas são prováveis.
O primeiro é classificação. Quando um token representa um direito de crédito, ele é valor mobiliário, e sob que condições? A resposta define o regime de boa parte das operações de crédito tokenizado.
O segundo é o papel das infraestruturas: quem custodia, quem registra, quem opera o ledger e qual responsabilidade cabe a cada elo.
O terceiro é a conversa com os regimes que já existem, como o de FIDC e o de ofertas públicas. A pergunta prática é como o novo enquadramento se encaixa em estruturas que o mercado usa há anos.
Tokenização é infraestrutura, não produto
Tratada como produto, a tokenização vira item de prateleira, uma promessa embrulhada em tecnologia da moda. Tratada como infraestrutura, vira o trilho por onde o crédito circula, se registra e liquida com menos atrito. A diferença muda a conversa com o regulador e com o investidor institucional.
No Web Summit Rio, em 10 de junho de 2026, o CEO da Zoop, Cesário Martins, defendeu a tese em painel, e no mesmo painel citou-se a casa dos US$ 500 bilhões em ativos reais já tokenizados no mundo. No mesmo dia, a Figure anunciou a compra da Kiavi por US$ 717 milhões, com a tese explícita de levar crédito imobiliário para trilhos tokenizados.
Para originadores e estruturadores, a recomendação é direta. Acompanhar a consulta quando ela abrir e, se fizer sentido, contribuir, porque o texto final reflete quem apareceu. Olhar as estruturas atuais com a pergunta certa: elas sobrevivem a uma supervisão on-chain com IA e análise de cadeia? Escolher parceiros de infraestrutura que já trabalham com a régua que o regulador está prestes a montar. A janela entre o anúncio e a norma é o tempo de preparação.
Próximo passo
A régua sobe para quem origina crédito, e a base de qualquer estrutura é a análise de cada empresa que entra na carteira. O Darico é a assinatura da Daryk, com os módulos de crédito e M&A, para quem quer chegar preparado antes de a norma sair.



