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Custo real do capital de giro: como calcular o CET

A taxa da proposta não é o custo do crédito. O que entra no CET, como o ciclo de caixa cria a necessidade de giro e quanto de dívida a empresa aguenta.

Daryk26 de junho de 20266 min de leitura

Foto: Jakub Żerdzicki, Unsplash

A taxa da proposta de capital de giro é quase sempre a parte mais barata da conta. O custo que pesa no caixa inclui IOF, tarifas, seguros e reciprocidade, e só aparece inteiro no Custo Efetivo Total (CET). Quem assessora a empresa ou analisa a operação precisa calcular esse número de forma independente e cruzá-lo com a capacidade de endividamento antes de qualquer renovação.

Por que a taxa informada não é o custo real

O banco apresenta apenas a remuneração nominal do dinheiro emprestado. O gerente informa 2% ao mês, o número parece civilizado, e a empresa assina. O custo real inclui o IOF, as tarifas de abertura e cadastro, os seguros atrelados ao contrato e, principalmente, as exigências de reciprocidade que reduzem o valor que a empresa de fato consegue usar.

O Banco Central reconhece essa distância e obriga as instituições a informar o Custo Efetivo Total de cada operação de crédito. O CET reúne juros e todos os encargos em um único percentual anual, calculado sobre o fluxo real de entradas e saídas. É esse número, e não a taxa nominal, que diz quanto a empresa paga. Poucas empresas leem o CET com atenção, e menos ainda o calculam de forma independente para comparar propostas.

O que compõe o Custo Efetivo Total

Quatro grupos de custo transformam uma taxa aparentemente baixa em crédito caro.

  • Juros. A remuneração nominal do empréstimo, ao mês ou ao ano. É a parte visível e quase nunca a maior surpresa.
  • IOF. O Imposto sobre Operações Financeiras tem uma parte fixa e uma parte que corre a cada dia em que o crédito fica aberto. Em uma operação de doze meses, ele sozinho acrescenta perto de 3,4% sobre o valor tomado, antes de qualquer centavo de juros.
  • Tarifas e seguros. Taxa de cadastro, tarifa de abertura de crédito e seguro prestamista elevam o custo efetivo, mesmo quando aparecem como valores fixos de poucos milhares de reais.
  • Reciprocidade. A exigência mais silenciosa e muitas vezes a mais cara. O banco libera o crédito e pede em troca saldo médio em conta, aplicação em produtos de baixa remuneração, seguros ou a folha de pagamento. Cada contrapartida reduz o dinheiro que efetivamente gira ou cria um custo paralelo fora da taxa.

Como calcular o CET na prática

O CET é a taxa que iguala, no tempo, tudo o que entra no caixa da empresa com tudo o que sai por causa da operação. De um lado, o valor liberado. Do outro, parcelas, tarifas, impostos e seguros nas datas em que serão pagos.

Um exemplo ilustrativo deixa o efeito claro. Uma empresa toma R$ 300 mil por doze meses, a uma taxa anunciada de 2,1% ao mês. Olhando só os juros, ela imagina pagar perto de 28% ao ano (2,1% ao mês compostos). Agora entra o restante. O IOF de uma operação anual adiciona pouco mais de 3% sobre o principal. Cadastro e seguro prestamista somam alguns milhares de reais. E o banco exige manter 15% do valor como saldo médio aplicado a remuneração baixa: a empresa paga juros sobre R$ 300 mil, mas usa de verdade cerca de R$ 255 mil.

Com tudo na conta, o custo efetivo salta da casa dos 28% para algo acima de 34% ao ano. A taxa do anúncio não mudou; o custo do dinheiro que a empresa realmente usou é outro, e é esse número que precisa entrar na decisão. Os valores são ilustrativos e não representam condições de nenhuma instituição.

O ciclo de caixa por trás da necessidade de giro

Para saber se o crédito está caro, é preciso entender por que a empresa o toma. Toda empresa que compra, estoca e vende a prazo convive com um descompasso entre o momento em que paga fornecedores e o momento em que recebe dos clientes. Esse intervalo é o ciclo financeiro. A conta é direta: some o prazo de recebimento dos clientes ao tempo em que a mercadoria fica no estoque e desconte o prazo dado pelos fornecedores. Se a empresa recebe em 45 dias, gira o estoque em 30 e paga fornecedores em 30, sobram 45 dias de operação que alguém precisa bancar. Esse alguém costuma ser o banco. Quanto maior o ciclo, maior a necessidade de capital de giro.

O erro comum é financiar uma necessidade estrutural de caixa com crédito de curtíssimo prazo e alto custo, como cheque especial ou rotativo. A empresa tampa o buraco hoje, o custo se acumula e o ciclo se repete no mês seguinte com dívida maior. Custo real e ciclo de caixa precisam ser olhados juntos.

Alguns sinais aparecem antes de qualquer planilha:

  • Uso recorrente de cheque especial ou rotativo, e não apenas em emergências.
  • Giro renovado rodada após rodada sem que o saldo devedor diminua.
  • Crédito concentrado em um único banco, o que reduz poder de negociação e amarra a empresa à reciprocidade daquela instituição.
  • Contrapartidas pesadas, como seguros e aplicações de baixo retorno, aceitas sem medir quanto custam.
  • Ninguém na empresa sabe dizer o CET das operações vigentes.

Quanto a empresa aguenta tomar

Calcular o custo é o primeiro passo. O segundo é saber quanto de dívida o caixa suporta sem comprometer a operação. Essa é a capacidade de endividamento, e ela depende de quanto a geração de caixa cobre do serviço da dívida.

Dois indicadores ajudam. A relação entre dívida líquida e geração de caixa operacional mostra quantos anos de resultado seriam necessários para quitar o endividamento. A cobertura de juros compara a geração de caixa com a despesa financeira e mostra se o resultado paga os juros com folga ou no limite. Quando esses indicadores apertam, cada real adicional de crédito caro empurra a empresa para uma zona de risco, por mais atrativa que a taxa pareça.

Quando o CET fica alto demais e a capacidade aperta, o banco deixa de ser a única porta. Boa parte do custo da operação tradicional vem do risco que a instituição precifica e da estrutura que ela carrega. Instrumentos lastreados em ativos da própria empresa tendem a sair mais barato porque reduzem esse risco. A antecipação de recebíveis é o exemplo mais direto: a empresa adianta o que já tem a receber, e o próprio recebível serve de garantia. Com a estruturação certa, esse tipo de operação acessa investidores fora do circuito bancário e costuma custar menos que o giro de balcão.

Próximo passo

Antes da próxima renovação, duas contas: o CET real das operações vigentes, com juros, IOF, tarifas, seguros e reciprocidade, e quanto de dívida o caixa comporta. A ferramenta gratuita de capacidade de crédito da Daryk é o ponto de partida para a segunda.

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